Mudanças

I.

Mais tarde, mostrariam a morte da sua irmã, o câncer que comeu sua vidinha de doze anos, tumores do tamanho de ovos de pato no seu cérebro, e ele um garoto de sete anos, ranho no nariz e cabelo à escovinha, vendo-a morrer no hospital branco com seus grandes olhos castanhos, e eles diriam “isso foi o começo”, e talvez tenha sido.

Em Reiniciar (diretor Robert Zemeckis, 2018), o bioépico, cortam para sua adolescência, e ele está vendo seu professor de ciências morrer de AIDS, depois de terem discutido sobre a dissecação de um grande sapo de estômago pálido — Por que temos de desmembrar o bichinho? — diz o jovem Rajit, enquanto a música aumenta. — Em vez disso, não deveríamos dar-lhe vida?

Seu professor, representado pelo falecido James Earl Jones, parece envergonhado e, então, inspirado, ergue a mão do leito de hospital e toca o ombro ossudo do garoto. — Bem, se alguém pode fazer isso, Rajit, esse alguém é você — diz num resmungo baixo.

O garoto assente com a cabeça e nos fita com uma dedicação em seus olhos que beira o fanatismo. Isso nunca aconteceu.

II.

É um dia cinzento de novembro e agora Rajit é um homem de quarenta e poucos anos, de óculos de aros escuros, os quais não está usando no momento, A faltados óculos enfatiza sua nudez. Sentado na banheira enquanto a água esfria, ensaia a conclusão do seu discurso. Ele encurva os ombros no dia-a-dia, embora não esteja encurvado agora, e considera suas palavras antes de falar.Não é um bom orador. O apartamento no Brooklyn, que divide com outro cientista e com um

bibliotecário, está vazio hoje. Seu pênis está encolhido e parece uma noz na água tépida. — Isso significa — diz devagar em voz alta — que a guerra contra o câncer foi vencida.

Então, faz uma pausa, ouve a pergunta de um repórter imaginário que está do outro lado do banheiro. — Efeitos colaterais? — pergunta numa voz que ecoa pelo banheiro. — Sim, há alguns. Mas, até onde pudemos averiguar, nada que crie mudanças permanentes.

Ele sai da banheira de porcelana gasta e anda, nu, até o vaso sanitário, onde vomita, violentamente, o medo da platéia trespassando-o como uma faca de estripar. Quando não há mais nada para vomitar e quando a ânsia cede, Rajit enxágua sua boca com Listerine, veste-se e pega o metrô até o centro de Manhattan.

III.

É, conforme a revista Time salientará, uma descoberta que “mudaria a natureza da Medicina tão fundamentalmente e teria um efeito tão importante quanto a descoberta da penicilina”. — E — diz Jeff Goldblum, fazendo o papel do Rajit adulto no bioépico — se você pudesse simplesmente reajustar o código genético do corpo? Muitas doenças acontecem porque o corpo se esqueceu do que deveria fazer. O código ficou embaralhado. O programa se corrompeu. E se… você pudesse consertar?

— Você é louco — replica, no filme, sua loira e encantadora namorada; na vida real a vida sexual de Rajit é uma série de transações comerciais intermitentes entre ele e os jovens da Agência de Acompanhantes AAA-Ajax.

— Ei — diz Jeff Goldbluin, explicando melhor do que Rajit jamais faria —, é como um computador. Em vez de arrumar os erros causadas por um programa corrompido um a um, sintoma a sintoma, você pode simplesmente reinstalar o programa. Toda a informação está lá. Temos apenas de dizer para nossos corpos verificarem novamente o RNA e o DNA, reler o programa se você preferir, e, então reiniciar, como um computador. 

A atriz loira sorri e o cala com um beijo, divertida, impressionada e apaixonada.

IV.

A mulher tem câncer no baço, nos nodos linfáticos e no abdome: linfoma não- Hodgkin. Também tem pneumonia. Concordou com o pedido de Rajit de se submeter a um tratamento experimental. Também sabe ela que a afirmação de que se pode curar o câncer é ilegal nos Estados Unidos. Era uma mulher gorda até recentemente. Perdeu peso, lembrando a Rajit um boneco de neve ao sol: a cada dia derretia, a cada dia ficava, ele percebia, menos definida.

— Não é uma droga conforme o que se entende por droga — diz ele. — É um conjunto de informações químicas. Ela não tem expressão. Ele injeta duas ampolas de um líquido claro nas suas veias.

Logo ela dorme. Quando acorda, está livre do câncer. Mas morre de pneumonia logo depois disso. Rajit passou os dois dias que antecederam sua morte indagando-se como explicaria o fato de que, como a autópsia demonstrou sem sombra de dúvidas, a paciente agora tinha pênis e era, em todo aspecto funcional e cromossômico, um homem.

V.

Vinte anos mais tarde, num minúsculo apartamento em Nova Orleans (embora pudesse muito bem ser em Moscou, Manchester, Paris ou Berlim). Esta noite será a grande noite e Jo/e vai causar estardalhaço. A escolha é entre um vestido de corte francês do século XVIII, no estilo

Polonaise, de crinolina (anquinha de fibra de vidro, corpete escarlate bordado com decote e armação de arame) e uma réplica da roupa de corte de Sir Phillip Sydney em veludo negro e fios de prata, completada com gola de tufos engomados e enchimento sobre os órgãos sexuais. Finalmente, e depois de avaliar todas as opções, Jo/e opta por prexeca em detrimento do bilau.

Doze horas para sair; Jo/e abre o vidro com as pílulas vermelhas, cada comprimidinho marcado com um X, e toma dois. São dez da manhã, e Jo/e vai para a cama, começa a se masturbar, pênis semi-ereto, mas adormece antes de gozar.

O quarto é muito pequeno. Roupas penduradas em qualquer superfície, uma embalagem vazia de pizza no chão. Em geral, Jo/e ronca alto, mas quando está livre-reiniciando não faz qualquer ruído. Aparentemente, está em coma. Jo/e acorda às dez da noite, sentindo-se renovado. No começo, quando Jo/e começou a freqüentar festas, cada mudança deflagrava um severo exame em si mesmo(a), perscrutando nevos e mamilos, prepúcio ou clitóris, vendo quais cicatrizes tinham desaparecido e quais persistido. Mas Jo/e havia se acostumado. Então, veste a anquinha e o vestido, seios novos (altos e cônicos) apertados um contra o outro, anágua arrastando pelo chão, o que significa que Jo/e pode calçar o par de botas Doctor Martens de quarenta anos de idade por baixo da saia (nunca se sabe quando será preciso correr, andar ou chutar; e chinelos de seda definitivamente não cooperam).

Uma peruca alta, de aparência empoada completa o visual. Em seguida, um borrifo de colônia. Então, a mão de Jo/e manuseia desajeitadamente a anágua, enfia um dedo entre as pernas (Jo/e não veste calcinhas, pretendendo uma autenticidade que as botas Doe Martens contradizem) e aplica a secreção como se fosse perfume atrás da orelha, talvez para dar sorte ou, quem sabe, seduzir. O táxi toca a campainha às 11:05h, e Jo/e desce. Jo/e vai ao baile.

Amanhã à noite, Jo/e tomará outra dose; a identidade profissional de Jo/e durante a semana é rigorosamente masculina.

VI.

Rajit nunca viu a ação de reprogramação de sexo do Reiniciar como algo além de um efeito colateral. O prêmio Nobel era destinado a trabalhos anticâncer (a reprogramação funcionava para a maioria dos casos de câncer, descobriu-se, mas não para todos).

Para um homem inteligente, Rajit era incrivelmente sem visão. Havia algumas coisas que ele não conseguia perceber. Por exemplo: que haveria pessoas que, mesmo sofrendo de câncer, prefeririam morrer a experimentar uma mudança de sexo; que a Igreja Católica opor-se-ia ao gatilho químico de Rajit, a essa altura vendido sob a marca Reiniciar, principalmente porque a mudança de sexo fazia com que o corpo da mulher reabsorvesse a carne do feto quando se reprogramava: homens não conseguem conceber. Várias outras seitas religiosas opunham-se ao Reiniciar, a maioria delas citando Gênesis 1:27 “E então Ele criou o homem e a mulher”, como motivo.

Seitas que se mostraram contra o Reiniciar incluíam: o Islamismo, Ciência Cristã, a Igreja Ortodoxa Russa, a Igreja Católica Romana (com algumas vozes discordantes), a Igreja da Unificação, Adeptos Ortodoxos da Jornada, Judaísmo Ortodoxo, a Aliança Fundamentalista dos Estados Unidos da América,

Seitas que se mostraram a favor do uso do Reiniciar, quando um médico qualificado julgava ser o tratamento apropriado incluíam: a maior parte das budistas, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Igreja Ortodoxa Grega, a Igreja da Cientologia, a Igreja Anglicana (com algumas vozes discordantes), Nova Adeptos da Jornada, Judaísmo Liberal e Reformado, Coalizão da Nova Era da América.

Seitas que, inicialmente, mostraram-se a favor do uso do Reiniciar de forma recreativa: nenhuma. Ao mesmo tempo que Rajit percebia que o Reiniciar tornaria a cirurgia de mudança de sexo obsoleta, nunca lhe ocorreu que alguém poderia tomá-lo por vontade, curiosidade ou fuga. Assim, não foi capaz de prever o mercado negro do

Reiniciar e de gatilhos químicos semelhantes, nem de antever que, em quinze anos de liberação comercial do Reiniciar e aprovação da FDA, o comércio ilegal de cópias mais baratas da droga (piratas, como logo ficaram conhecidas)

venderia, grama por grama, acima de dez vezes mais do que a heroína e a cocaína.

VII.

Em vários dos Novos Estados Comunistas da Europa Oriental, a posse das drogas piratas implicava sentença de morte. Na Tailândia e na Mongólia, houve relatos de que meninos eram forçosamente reprogramados como meninas para aumentar seu valor na prostituição.

Na China, meninas recém-nascidas eram reprogramadas como meninos: famílias davam todas as suas economias por uma única dose. Os velhos morriam de câncer como antes. A crise subseqüente na taxa de natalidade não foi percebida como um problema até ser tarde demais; as soluções drásticas propostas mostraram-se difíceis de serem implementadas e levaram, a seu modo próprio, a revolução final.

A Anistia Internacional relatou que, em vários países Pan-Árabes, homens que não conseguiam demonstrar facilmente que haviam nascido do sexo masculino e que não eram, de fato, mulheres fugindo da obrigatoriedade do véu estavam sendo encarcerados e, em muitos casos, estuprados e mortos. A maior parte dos líderes árabes negava que qualquer fenômeno estivesse ocorrendo ou tivesse jamais ocorrido.

VIII.

Rajit está com sessenta e poucos anos quando lê no The New Yorker que a palavra mudança está adquirindo conotações de profunda indecência e tabu. Estudantes riem constrangidos quando encontram frases como “preciso mudar”, ou “hora de mudança”, ou “os ventos da mudança”, nos seus estudos de literatura anteriores ao século XXI. Em uma aula de inglês em Norwich, risos

obscenos saúdam a descoberta de um colega de quatorze anos de que “uma mudança é tão boa quanto um descanso”. Um representante da Sociedade Inglesa do Rei escreve uma carta ao jornal The Times, deplorando a perda de outra palavra perfeitamente útil na língua inglesa. Vários anos mais tarde, um jovem em Streatham é processado por vestir em público uma camiseta com o slogan SOU UM HOMEM MUDADO claramente escrito.

IX.

Jackie trabalha no Blossoms, uma danceteria na zona oeste de Hollywood. Há dúzias, senão centenas, de Jackies em Los Angeles, milhares por todo o país, centenas de milhares pelo mundo. Algumas trabalham para o governo, outras para organizações religiosas ou comerciais. Em Nova Iorque, Londres e Los Angeles, pessoas como Jackie ficam na porta de lugares onde as multidões se aglomeram.

Isto é o que ela faz. Jackie observa a multidão entrando e pensa: nasceu H agora é M, nasceu M agora é H, nasceu H agora é H, nasceu H agora é M, nasceu M agora é M… Nas “Noites Naturais” (cruamente, não-mudados) Jackie diz: “sinto muito, hoje você não pode entrar” muitas vezes. Pessoas como Jackie possuem uma taxa de exatidão de 97 por cento. Um artigo na revista Scientific American sugere que essa capacidade de reconhecimento do sexo de nascença pode ser herança genética: uma habilidade que sempre existiu, mas não tinha valores para sobrevivência até agora.

Jackie é emboscada de madrugada, depois do trabalho, nos fundos do estacionamento da Blossoms. E a cada bota que chuta ou pisa o rosto, o peito, a cabeça e a virilha de Jackie, ela pensa: nasceu H agora é M, nasceu M agora é M, nasceu M agora é H, nasceu H agora é H…

Quando Jackie sai do hospital — visão em apenas um olho, rosto e peito um único, enorme, hematoma roxo-esverdeado — há uma mensagem, mandada junto com um grande arranjo de flores exóticas, dizendo que a vaga para seu

trabalho ainda está aberta. Entretanto, Jackie pega o trem-bala para Chicago e, então, o comum para Kansas City e por lá fica, trabalhando como pintora de paredes e eletricista, profissões que Jackie aprendera há muito tempo. Ela não volta mais.

X.

Rajit tem agora setenta e poucos anos. Mora no Rio de Janeiro. É rico o suficiente para satisfazer qualquer capricho; no entanto, não faz sexo com ninguém. Tomado por desconfiança, observa as pessoas da janela do seu apartamento, fitando os corpos bronzeados em Copacabana. Está pensativo.

As pessoas na praia pensam tanto nele quanto um adolescente com clamídia agradece a Alexander Fleming. A maioria imagina que Rajit já deve estar morto. De qualquer forma, ninguém se importa. Aventa-se que alguns tipos de câncer evoluíram, ou sofreram mutação para sobreviver à reprogramação. Muitas doenças bacteriológicas e viroses podem sobreviver à reprogramação. Algumas até mesmo desenvolvem-se em função da reprogramação e levanta-se a hipótese de que uma delas — uma variedade de gonorréia — usa o processo em sua transmissão, permanecendo inicialmente em repouso no corpo hospedeiro e tornando-se infecciosa apenas quando a genitália se reorganiza em sexo oposto.

Mesmo assim, a média da expectativa da vida humana no Ocidente está aumentando. O motivo pelo qual alguns livre-reprogramadores — usuários do Reiniciar com fins recreativos — parecem envelhecer normalmente, enquanto outros não demonstram indícios de envelhecimento, é algo que confunde os cientistas. Alguns afirmam que o último grupo está realmente envelhecendo em termos celulares. Outros mantêm que ainda é cedo demais para se concluir e que ninguém sabe coisa alguma com certeza.

A reprogramação não reverte o processo de envelhecimento; entretanto, há evidências de que, para alguns, ela pode deter tal processo. Muitas pessoas da geração mais velha, que até agora têm resistido à reprogramação por prazer,

começam a tomar a droga regularmente — livre-reiniciação —, tendo ou não condições médicas que as permitam fazê-lo.

XI.

O processo de tornar diferente ou alterar é agora conhecido como troca. O mesmo se dá quando se deixa de morar em uma casa para fixar residência em outra.

XII.

Rajit está morrendo de câncer de próstata no seu apartamento no Rio de Janeiro. Tem noventa anos. Nunca tomou o Reiniciar; agora a idéia o amedronta. O câncer espalhou-se pelos ossos da sua pélvis e testículos. Ele toca a campainha. Há uma curta espera para que a novela diária da sua enfermeira seja desligada, a xícara de café seja posta de lado. Finalmente, a enfermeira vem,

— Leve-me para fora, para o ar — diz para a enfermeira, sua voz rouca. A princípio, ela não aparenta entender. Ele repete, no seu mau português. A enfermeira nega com a cabeça. Ele se arrasta para fora da cama — uma figura encolhida, tão inclinada que é quase corcunda, e tão frágil que parece que uma tempestade o levaria — e começa a andar até a porta do apartamento.

Sua enfermeira tenta, sem sucesso, dissuadi-lo, então, ela caminha com ele até a entrada do apartamento e segura seu braço enquanto esperam pelo elevador. Rajit não saía do apartamento havia dois anos; mesmo antes do câncer, não deixava o apartamento. Está quase cego.

A enfermeira o guia até o sol flamejante, atravessam a rua e chegam à areia de Copacabana.

As pessoas na praia olham fixamente o velho, careca e podre, no seu surrado pijama, olhando ao redor com olhos opacos, que já foram castanhos, através dos óculos de aros escuros, grossos como fundo de garrafa. Ele os encara também.

São todos dourados e lindos. Alguns dormem na areia. A maioria está nua ou veste um tipo de traje de banho que enfatiza e pontua sua nudez. Rajit os conhece, então. Mais tarde, muito mais tarde, fazem um outro bioépico. Na seqüência final, o velho cai de joelhos na praia, como o fez na vida real, e o sangue pinga da abertura do seu pijama, empapando o algodão manchado e formando uma poça escura sobre a areia macia. Ele fita as pessoas fixamente, olhando de uma para outra com estupefação no rosto, como um homem que finalmente aprendeu a encarar o sol.

Disse apenas uma palavra enquanto morria, cercado pelas pessoas douradas, que não eram homens, que não eram mulheres. Disse “anjos”. E as pessoas que assistiam ao bioépico, tão douradas, tão lindas, tão mudadas quanto as pessoas na praia, sabiam que era o fim de tudo aquilo.

E, não importa a maneira como Rajit tivesse entendido, realmente seria.

(Fumaça e Espelhos / Neil Gaiman; tradução Cláudio Blanc – São PAulo : Via Lettera Editora e Livraria, 2002) 

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Intervenções falam e escutam

Em geral, a escala da intervenção urbana vai além das dimensões das galerias do museu por isso invade os monumentos, calçadas, praças e edifícios da cidade. A escala muitas vezes é tão grande que a obra se expande e extrapola as fronteiras da cidade indo até as áreas rurais. Intervenção artística urbana ou rural é uma arte efêmera, que pode durar horas ou meses. De certa maneira, existem exemplos em que a cidade se apropria desta intervenção e ela passa a ser permanente.

Está em Brasília para divulgar seu trabalho e promover uma intervenção a ser realizada no espelho d´agua do Congresso Nacional o artista Eduardo Srur (este texto foi escrito antes da publicação do mesmo neste blog). Ele começou sua carreira como pintor e hoje atua como um artista que utiliza a cidade como pano de fundo para sua pintura. Ou seja, realiza intervenções urbanas. Modifica a paisagem a partir de objetos que interferem no significado do ambiente, trazendo um novo modo de ver e se relacionar com o espaço interferido. Veste e reveste a cidade com novas mensagens visuais. As temáticas de seus trabalhos já são variadas. Mensagem bíblica, proteção ao meio ambiente, crítica politica e até mesmo a arte.

Uma de suas obras mais poéticas e que deu início a sua série de intervenções se chama Acampamento dos Anjos. A primeira intervenção com este título se deu no alto de um edifício com a instalação de uma barraca iluminada por dentro. Esta obra nasceu após o autor ter lido o Salmo O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra. A obra nos remete a anjos acampando ao redor do edifício.

Para mim, intervir é sentir-se participante, atuante. É ter liberdade para expressar o que pensa. Não significa destruir o que existe para impor uma opinião que considere ser correta. É poder dialogar acreditando nas próprias ideias e sentir que está sendo escutado. No diálogo também escutamos e saber escutar é um dos papéis mais difíceis de uma intervenção artística.

A cidade, espaço público por excelência, é ideal para intervenções artísticas, pois, entre muitos motivos, a obra alcança o público de forma mais imediata e ampla. Mas o campo, virgem de ideias nos possibilita um contato diferente com a obra. Onde ela, isolada em si mesma, também se silencia não para ser escutada, mas para escutar.

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Planaltina imaterial

Conhecida pelos bens materiais que possui, como as casas tradicionais, o museu, a antiga delegacia e a igreja construída no século XIX, referências visuais da única cidade do Distrito Federal que atravessou dois séculos, Planaltina também possui ricos bens imateriais, como o artesanato, as cantorias, a catira, a comida e algumas das mais importantes e grandes manifestações artísticas de caráter popular do DF e região.

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO. As suas tradições populares surgiram em função de suas festas religiosas. Nelas a arte popular aparece, se desenvolve e amadurece com o tempo. A Festa do Divino Espírito Santo em Planaltina, com origem que antecede a construção de Brasília, é bastante tradicional também nas cidades goianas. Esta festa trouxe para Planaltina as suas danças e músicas típicas e a sua comida tradicional. É um período onde as ruas e as casas se decoram e as pessoas se vestem a caráter para celebrar a data do calendário católico. Esta festa atrai moradores das cidades vizinhas principalmente aquelas de municípios goianos próximos que também tem tradições similares as de Planaltina.

VIA SACRA AO VIVO. Durante a Semana Santa é encenada pela cidade e no Morro da Capelinha a conhecida Via Sacra ao Vivo de Planaltina. Por mais religioso que o evento seja, ele possui um caráter artístico que é tratado com a mesma importância que a fé tem para seus atores e fiéis. Pois é através da linguagem artística que a fé será expressada. É um trabalho de pesquisa constante, feito de maneira artesanal pelos próprios moradores, que foram desenvolvendo as técnicas durante os quarenta anos de existência deste espetáculo realizado ao ar livre. Desde o tingimento dos tecidos até a confecção de peças mais complexas como a vestimenta dos soldados e os cenários que complementam os palácios. Assim como a Festa do Divino, a Via Sacra ao Vivo utiliza diferentes meios de expressão artístíca. O Morro da Capelinha atrai, em único dia, um público que alcança um público de mais de 150.000 pessoas. O Grupo Via Sacra ao Vivo, que realiza o evento, é composto por 1.400 pessoas entre técnicos e atores amadores que não recebem para encenar.

ARTESANATO. As peças criadas pelo artesanato planaltinense são feitas de barro, madeira, vegetação seca e couro. A Casa do Artesão tem como sede a antiga cadeia. Segundo informações obtidas pelos artesãos que trabalham neste lugar, foi elaborado um projeto de revitalização acrescentando à Casa do Artesão um centro de informações ao turista, que é bastante necessário para esta cidade histórica. Porém o projeto até hoje não foi executado.

CENTROS CULTURAIS. A cidade sente falta de centros culturais destinados a formação de artistas locais, a exposição de seus trabalhos e a divulgação do que é produzido artisticamente em Planaltina. Mas os projetos para estes centros precisam se adequar a realidade da cidade. Devem ser propostas que entendem o que a cultura local necessita.  É comum a elaboração de projetos padronizados feitos pelo governo e instalados em diferentes pontos do Distrito Federal como se todas as cidades satélites tivessem as mesmas demandas e tivessem os mesmos tipos de produção artística.

As festas populares, como a Festa do Divino e a Via Sacra ao Vivo não possuem sedes apropriadas para confecção de todo um aparato artístico que enriquece estes eventos e promove a seu modo a formação de artistas. Pois estes eventos necessitam de costureiras para produzirem figurinos, de pintores para pintar painéis e de escultores para esculpir cenários. Estes artistas teriam uma formação mais qualificada se houvesse espaços físicos mais estruturados para o desenvolvimento de seus trabalhos. Hoje, as peças artesanais para as festas populares são produzidas de modo improvisado nas casas dos responsáveis por elas. Com os centros culturais destinados também a arte popular a cidade teria festas esteticamente mais elaboradas, com uma qualidade superior a que é produzida hoje.

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Planaltina material

A cidade mais antiga do Distrito Federal, dotada de uma história que antecede e permeia a construção de Brasília, teve seu centro histórico e suas tradições culturais profundamente interferidas pela criação do Distrito Federal.

Planaltina foi desmembrada de seu município para se integrar ao Distrito Federal e teve que se adaptar a novos costumes trazidos por habitantes recém chegados de diferentes partes do país, teve sua configuração urbana redesenhada para se adaptar a nova infra-estrutura e sua estrutura administrativa foi complemente substituída por outra que lhe dá menos autonomia. A cidade tornou-se dependente da Capital Federal e muito do progresso esperado pela população que viveu este processo de transição não chegou. A cidade passou a ser tratada como mera cidade-satélite (uma das mais distantes do “centro”), perdendo seu valor histórico artístico e cultural, que é representativo não somente para esta Região Administrativa, mas que também narra à história da criação de Brasília. A Pedra Fundamental inaugurada em 1922 que determina o local de construção da Nova Capital está localizada terras planaltinenses.

Cidade singular dentro do território onde se encontra a capital do país, Planaltina perde a cada ano uma referência visual de sua história. O Centro Histórico do Setor Tradicional, parte da cidade originária antes da criação de Brasília, era composto por inúmeras edificações do período Pós-Colonial. Após a chegada de Brasília, elas foram perdendo força diante da especulação imobiliária e da falta de uma política de preservação mais eficaz para mantê-las vivas. Para seus habitantes, estas residências não tinham somente um valor sentimental (motivo também bastante válido para se preservar uma residência), mas formavam um cenário que guardava a história de hábitos e costumes de uma sociedade que se preparou com otimismo para receber a capital do país em suas terras. De pessoas que conheciam e conhecem muito bem uma região que antes só havia o cerrado e que hoje sustenta o moderno concreto de Brasília.

As antigas casas revelam como eram os costumes da região no período de transferência da capital. Ou melhor, poderiam nos revelar, pois já são muito poucas as edificações históricas no Centro Histórico de Planaltina. Em 1985 foi elaborada a Poligonal da Área Histórica junto com as suas Normas de Gabarito a fim de se preservar este setor, porém os desmembramentos irregulares de lotes, a derrubada de antigas árvores acompanhada pela demolição de edificações a serem preservadas não teve fim.

O que existe ainda hoje é de imenso valor para todo o DF. Existem somente duas edificações tombadas como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Distrito Federal: o Museu da Praça, um antigo casarão que hoje abriga uma biblioteca, possui espaços para exposição e tem um acervo com mobiliário histórico e a Igreja de São Sebastião, conhecida por todos como “Igrejinha”. A Igreja é um dos marcos visuais mais expressivos da cidade e uma das construções mais antigas. Atualmente ela apresenta alguns problemas estruturais que estão sendo investigados pelos órgãos competentes.

Planaltina é uma cidade que ainda chama sua Administração Regional de Prefeitura, ou seja, parece que sua transferência para o Distrito Federal ainda não se sucedeu. Enquanto isso ela vai perdendo sua memória e morrendo junto com seus mais antigos moradores. O receio da geração atual é de que Planaltina, mesmo existindo, deixe de existir e passe a existir somente na memória do povo, até um dia duvidarem da existência desta cidade histórica.

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Aprendemos quando vemos e vemos quando aprendemos.

Percorremos com os olhos os lugares, as pessoas, as vegetações e as diversas coisas ao nosso redor. As imagens são mudas aos olhos de quem não sabe ver. Passam despercebidas se não somos treinados a perceber o que elas têm para nos dizer.  Cada um com seu próprio, único e insubstituível ponto de visão, pode nos revelar, a partir de sua posição, de sua sensibilidade e das informações acumuladas o que a imagem tem para dizer. Mas, para isso é necessário aprender a ver.

A imagem captada pela retina e traduzida em mensagem é educadora. A imagem é carregada de símbolos e códigos que podem ter ou não o mesmo significado para pessoas diferentes. As possibilidades de interpretação de uma imagem são infinitas, devido ao olhar peculiar de cada individuo e a abstração que é inerente a imagem. Uma cadeira em uma sala vazia pode trazer uma mensagem tão complexa quantas centenas de cadeiras de diferentes modelos espalhadas em um lugar qualquer.  

O conhecimento também nos ensina a ver. O que sabemos nos ajuda a relacionar o que vemos com as informações que conhecemos e enriquece a nossa interpretação da imagem. Assim como aprendemos a andar, também aprendemos a ver. Aprendemos a ver para aprender.

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O dia em que as escolas foram demolidas

Uma vez escutei de uma professora que todas as escolas deveriam ser demolidas. Destruiria assim o espaço físico escolar, mas sem eliminar o espaço que a educação tem em nossas vidas.

Sabe-se do pensamento atrasado da educação vigente e de como seus espaços físicos contribuem para este atraso. Sabe-se também das inúmeras propostas de melhoria no ensino e das tentativas de aplicação destas propostas. Mas os espaços físicos destinados as escolas se assemelham aos mesmos espaços de tempos remotos e por isto colaboram para este atraso.

Não menciono a má qualidade da infra-estrutura destes espaços e do péssimo estado de conservação comum ás escolas públicas. A saúde do ambiente escolar não se resume somente a estes tópicos. Está presente na configuração espacial que as escolas assumiram como sendo a mais adequada e mantida por causa do pouco investimento na educação ou por acomodação aos métodos mais tradicionais de ensino.

Apesar de tudo, métodos de ensino vêem sendo questionados a décadas e novas propostas para a aprendizagem estão obtendo sucesso quando colocadas em prática. Mas, os educadores sabem que as teorias pedagógicas não são a única maneira que a educação possui para o desenvolvimento do ensino. A evolução da informática e dos equipamentos tecnológicos também contribui para isto. Mas a arquitetura tem bastante influência na aprendizagem, contribuindo ou não para a qualidade do ensino.

Mesmo assim, já existem edifícios adaptados a teorias pedagógicas de ensino que atendem as necessidades do profissional que pratica tal método. Mas, em geral, os centros educacionais costumam ter o mesmo padrão de projeto arquitetônico que não estimulam novas formas de transmitir o conhecimento e são pouco adaptáveis a novos paradigmas e as novas tecnologias.

Demolir as escolas pode ser um meio de nos revelar que a educação é maior que os espaços físicos destinados a ela. Que hoje ela vive como escondida entre paredes que não a “representam” mais, em lugares que ela não se identifica mais. E assim nos fazer rever o papel da arquitetura diante da educação. Demolir, no caso, não as edificações propriamente ditas, mas o conceito arquitetônico que é adotado para as escolas e que segue padrões a muitos anos estabelecidos e por isso atrasado diante das mudanças de visão acerca do ensino, dos meios de aprendizado e do papel da escola na sociedade.

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SALA DE AULA COMO SALA DE CINEMA

É comum os educadores utilizarem filmes como ferramenta de trabalho. Ou seja, além dos tradicionais recursos disponíveis para transmitir um conhecimento, filmes com temática relacionada à matéria também enriquecem a aula e facilitam a aprendizagem. Dependendo como o professor explora o conteúdo do filme ele é capaz de trazer novas formas de percepção do assunto tratado em sala.
O cinema, portanto, quando entra em sala de aula não é tratado como entretenimento, mas como uma proposta de análise e reflexão. Serve como base para aprofundamento da matéria. Os filmes podem contribuir para o processo de avaliação do aluno, como na produção de relatórios, trabalhos em grupo ou em debates acerca do que foi apresentado.
Filmes não estão restritos somente as salas de cinemas e aos momentos de diversão. Costumam ser utilizados em ambientes de aprendizagem como mais um método de ensino rico em informação. Mas é um instrumento que se deve utilizar no momento e na medida certa, por alguns motivos:
1. Nem sempre é possível passar um filme do início ao fim em sala de aula devido ao tempo estipulado para a aula. Isso pode ocorrer, principalmente no caso de filmes de longa metragem. Por isso, o professor é obrigado a parar o filme para passá-lo na aula seguinte.
2. Nem todo conteúdo do filme que é exibido em sala é de interesse da matéria. Ou seja, nem sempre é interessante exibir o filme na integra, pois há casos em que somente uma ou outra cena será aproveitada para a matéria. Neste caso, o filme pode gerar dispersão do assunto.
3. Nem todo espaço físico escolar é adequado para se ver um filme. É comum as salas de aula não se adaptarem a exibição de filmes como a ausência de superfície adaptada e vedações que ambientem o espaço para melhor qualidade de exibição.

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